Saúde

Plásticos invisíveis: estudo estima quase 2 milhões de partos prematuros ligados a químicos do dia a dia
Pesquisa global aponta que exposição a ftalatos, presentes em embalagens e cosméticos, pode responder por até 8,7% dos nascimentos prematuros e 74 mil mortes neonatais por ano
Por Laercio Damasceno - 31/03/2026


Imagem: Reprodução


Os plásticos foram celebrados, por décadas, como símbolo de modernidade e praticidade. Agora, uma nova estimativa científica global sugere que o custo oculto dessa conveniência pode estar sendo pago já no início da vida. Um estudo publicado nesta segunda-feira (30), na revista eClinicalMedicine, do grupo The Lancet, indica que a exposição a substâncias químicas amplamente usadas em plásticos — os chamados ftalatos — pode estar associada a quase 2 milhões de nascimentos prematuros por ano no mundo.

A pesquisa, liderada por Sara Hyman e colegas da Faculdade de Medicina da Universidade de Nova York (NYU), calcula que, apenas em 2018, cerca de 1,97 milhão de partos prematuros — o equivalente a 8,74% do total global — estejam ligados à exposição ao ftalato DEHP, um plastificante comum em embalagens, produtos de higiene e utensílios cotidianos.

“Este é o primeiro modelo global que quantifica o impacto desses compostos sobre a prematuridade”, afirma Hyman no artigo. “Os resultados sugerem que a exposição a ftalatos é um fator subestimado, mas potencialmente evitável, de risco reprodutivo.”

Uma ameaça disseminada

Os ftalatos são classificados como desreguladores endócrinos — substâncias capazes de interferir no funcionamento hormonal do organismo. Segundo o estudo, a exposição é praticamente universal: ocorre por ingestão de alimentos embalados, inalação de partículas no ar e contato com a pele.

A equipe utilizou dados de biomonitoramento populacional, meta-análises e estimativas epidemiológicas para modelar o impacto global. O resultado aponta não apenas para a alta incidência de partos prematuros, mas também para consequências severas:

- 74 mil mortes neonatais associadas
- 6,69 milhões de anos de vida perdidos (YLL)
- 1,22 milhão de anos vividos com incapacidade (YLD)

Ao aplicar um fator que estima que 98% do DEHP está ligado à indústria do plástico, os autores concluem que cerca de 1,93 milhão de casos podem ser diretamente atribuídos ao uso desses materiais.

Desigualdade global

O impacto, no entanto, não é distribuído de forma homogênea. Mais da metade dos casos concentra-se no Oriente Médio e no Sul da Ásia, regiões que respondem por cerca de 54% dos nascimentos prematuros atribuíveis ao DEHP. A África aparece em seguida, com aproximadamente 26% do total global.

Para Leonardo Trasande, coautor do estudo e professor da NYU, essa concentração reflete uma combinação de fatores: crescimento industrial acelerado, regulação mais frágil e maiores níveis de exposição ambiental. “Essas populações enfrentam um duplo risco: maior exposição e maior vulnerabilidade de base”, escrevem os autores.

Já regiões de alta renda, como Canadá e Austrália, apresentam números significativamente menores, embora não estejam imunes ao problema.

Impacto duradouro

O nascimento prematuro — definido como aquele que ocorre antes das 37 semanas de gestação — é uma das principais causas de morte infantil no mundo. Mais de 13 milhões de bebês nascem prematuros a cada ano, e cerca de 1 milhão morrem antes de completar cinco anos.

Mesmo entre os sobreviventes, os efeitos podem ser duradouros: maior risco de doenças respiratórias, déficits neurológicos e problemas metabólicos ao longo da vida.

Do ponto de vista biológico, os ftalatos podem desencadear inflamação, estresse oxidativo e alterações no desenvolvimento da placenta — mecanismos já associados ao parto prematuro em estudos anteriores.

O estudo também avaliou o impacto de um substituto comum do DEHP, o DiNP. Os resultados sugerem que ele pode ter efeito semelhante: cerca de 1,88 milhão de partos prematuros e 64 mil mortes neonatais associados globalmente.

Apesar da incerteza maior nos dados, a conclusão preocupa: substituir um ftalato por outro não elimina necessariamente o risco. “Regular compostos individualmente pode atrasar avanços na proteção da saúde”, alertam os autores.

Custos bilionários e pressão por regulação

Além do impacto humano, os custos econômicos são expressivos. O estudo estima que as perdas associadas à mortalidade por prematuridade ligada ao DEHP podem chegar a centenas de bilhões de dólares por ano, dependendo do modelo utilizado.

Para especialistas, esses números reforçam a urgência de políticas públicas mais rigorosas. Negociações internacionais para um tratado global contra a poluição plástica já estão em andamento, mas ainda enfrentam entraves políticos e econômicos.

Um problema evitável

A principal implicação do estudo é clara: parte significativa da prematuridade global pode ser evitada. Reduzir a exposição a ftalatos — por meio de regulação, inovação industrial e mudanças no consumo — surge como uma estratégia concreta de saúde pública.

“Essas estimativas mostram que estamos diante de um fator de risco modificável”, concluem os autores. “A redução da exposição pode ter impacto direto na sobrevivência e na qualidade de vida de milhões de crianças.”

Num mundo cada vez mais dependente do plástico, o estudo acrescenta uma nova dimensão ao debate: não se trata apenas de poluição ambiental, mas de um problema que começa antes mesmo do nascimento — silencioso, disseminado e potencialmente evitável.


Referência
Parto prematuro atribuível à exposição a substâncias químicas utilizadas em materiais plásticos: uma estimativa global. eClinicalMedicine. Publicado em: 30 de março de 2026. Sara Hyman, Jonathan Acevedo, Leonardo Trasande. DOI:  10.1016/j.eclinm.2026.103842Link externo

 

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